Conselho Regional de Biologia 4ª Região
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Artigo analisa saída dos EUA do Acordo de Paris

Aprovado por 195 países com o objetivo central de fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima e de reforçar a capacidade para lidar com os impactos decorrentes dessas mudanças, o Acordo de Paris sofreu um forte baque no dia 1º de junho, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a saída dos Estados Unidos do acordo.  

Em artigo publicado no jornal Estado de Minas no dia 20 de junho o biólogo e conselheiro do CRBio-04 Thiago Metzker faz uma análise dessa decisão e da precariedade dos argumentos utilizados por Trump. Confira!

De volta ao passado
Retrocesso: ato, processo ou efeito de retroceder; deslocamento físico para trás, retorno ao local de onde se saiu; retirada, recuo. Palavras que expressam exatamente o último ato de um terrorista ambiental internacionalmente conhecido.
No primeiro dia de junho, o fantasioso presidente Donald Trump anunciou a saída dos EUA do Acordo de Paris. Como um dos grandes motes de sua campanha eleitoral, ele justifica o abandono desse acordo internacional com a justificativa de que os cidadãos norte-americanos não podem se prejudicar ou serem lesados por restrições de uma política global em que ele já declarou, inúmeras vezes, não acreditar. Isso mesmo! Para Donald Trump, a ciência do clima é uma forma de conspiração de outros países contra os EUA. Com esse entendimento, ele segue na linha do America first’ e espalha literalmente o terror nas principais agências científicas e políticas do mundo afora. 
Mas, pelo visto, o presidente anda muito mal assessorado, ou mal acompanhado. Ou, então, seja realmente o que dizem por aí dele ser mesmo um mero joguete de uma indústria da velha guarda. Digo isso, pois é incabível um discurso que alegue que um acordo climático é desvantajoso para os cidadãos de um país, uma vez que eventos causados pela mudança do clima ocasionaram o desespero e a morte de tantos norte-americanos nos últimos anos. Um extenso estudo realizado durante 3 anos e finalizado em 2016, pelo próprio governo dos EUA, determinou que “vão ocorrer, nos EUA, 11 mil mortes a mais no verão de 2030 devido ao calor extremo e que, em 2100, o número de mortes adicionais pelas altas temperaturas chegará a 27mil’. Conclui, ainda, pelo aumento do número de furações na entrada do Golfo do México, aumento das doenças transmitidas por insetos e redução do valor nutricional dos alimentos produzidos nos EUA. Considerando ainda que a população do EUA é considerada demograficamente envelhecida, o estudo conclui que os efeitos da mudança climática serão sentidos em todas as camadas da população. No entanto, os grupos mais vulneráveis serão os idosos e as pessoas com poucos recursos econômicos. Chega ao ponto de os próprios gestores da Agência de Proteção Ambiental (EPA) afirmarem: “Não se trata só das geleiras e dos ursos polares. É sobre a saúde dos nossos filhos”. 
Bom, dessa forma, logo Donald Trump será acusado, minimamente, por propaganda enganosa, pela simples pergunta: a saída dos EUA do Acordo de Paris é para proteger quem mesmo? O Acordo de Paris foi um grande marco na história da política mundial, pois foi assinado em 2015, por 195 países, na Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas. Esse acordo tem como objetivo uma rede de cooperação global para manter as temperaturas médias globais abaixo dos 2°C, em relação à era pré-industrial. Acordo esse que busca avanços tecnológicos disruptivos para um bem comum em futuro próximo. Como um consenso desses pode ser prejudicial para um país como os EUA? Tem que pensar muito pequeno para querer justificar.
Sabido que o mundo dá voltas, é uma obrigação dos demais 194 países signatários fazer o Acordo de Paris decolar e ganhar escala necessária para atingir seus objetivos. Imprimir uma agenda positiva com os incentivos para países subdesenvolvidos, transferência de tecnologias e financiamento de políticas públicas globais, como o REDD+. Este é o grande recado que podemos dar. É hora do protagonismo de outras lideranças, como é o caso da China. Com uma economia emergente e uma população quatro vezes maior que a dos EUA, um movimento chinês nesse sentido refletirá no posicionamento de todos os demais atores. Países como o Canadá e o México também têm nas mãos, agora, a melhor oportunidade de se destacarem-na mitigação climática nas Américas. Lideranças e grupos empresariais mundiais já sinalizam o apoio integral ao Acordo de Paris e posicionamento contrário a uma saída formal dos EUA. 
Esse deve ser o movimento dos próximos meses. Precisaremos dos esforços desses novos atores para disseminar a atmosfera positiva que o Acordo de Paris propôs. Afinal, temos a certeza de que o combate às mudanças climáticas pela transição a um modelo de baixo carbono, restauração de florestas em larga escala e projetos de adaptação e vulnerabilidades é uma perspectiva inexorável para todos os países. Não há mais dúvida de que esse será o motor da nova economia e da próxima revolução tecnológica.

Thiago Metkzer
Biólogo, doutor em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre, conselheiro do CRBio-04 e presidente do IBAM – Instituto Bem Ambiental
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