Por Felipe Morais
Imagine um abrigo tão resistente que oferece proteção mesmo quando tudo ao redor vira cinzas. No Cerrado brasileiro, ele existe: larvas de besouros da espécie Collabismus clitellae sobrevivem a incêndios intensos protegidas por galhas formadas em plantas de lobeira (Solanum lycocarpum). A descoberta, que revela estratégias surpreendentes de resistência ao fogo, é tema de uma pesquisa intitulada “Set fire to the gall: Can the gall protect the galling weevil from fire?”, que foi publicada na prestigiada revista científica Ecology e repercutida pelo jornal The New York Times.

A pesquisa foi liderada pelo biólogo Jean Carlos Santos (CRBio 049068/04-D), professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e contou com a colaboração do também biólogo Walter Santos de Araújo (CRBio 070972/04-D), que coordena o Laboratório de Interações Ecológicas e Biodiversidade da Universidade Estadual de Montes Claros e é subdelegado do CRBio-04 no Norte de Minas. Walter foi responsável por parte da análise ecológica e pela interpretação dos dados. Também participaram da pesquisa e assinaram o artigo os biólogos Henrique Venâncio (CRBio 134120/04-D) e Guilherme Ramos Demétrio (CRBio 104605/04-D), a pesquisadora Wanessa Rejane de Almeida e o professor da Universidad Michoacana, no México, Pablo Cuevas Reyes.
A descoberta teve início em 2012, durante um incêndio de grandes proporções na Fazenda Nova Monte Carmelo, em Minas Gerais. Na ocasião, Jean Carlos realizava trabalhos de campo quando percebeu que, mesmo após o fogo, havia larvas vivas dentro das galhas. A partir disso, surgiu a hipótese de que essas estruturas poderiam funcionar como escudos térmicos naturais. Anos depois, com análises detalhadas e coleta de dados em áreas queimadas e não queimadas, a pesquisa confirmou que 66% das larvas sobreviveram, principalmente quando abrigadas em galhas menores, com parede mais espessa e menos densidade de indivíduos.
O trabalho alerta que, apesar da proteção natural das galhas, essa estratégia pode não ser suficiente diante do aumento dos incêndios no Cerrado, muitos causados por atividades humanas e agravados pelas mudanças climáticas. Isso ameaça não só os insetos, mas toda a fauna local e o equilíbrio do ecossistema. Segundo Walter, “o estudo evidencia a importância de manter regimes de fogo controlado e compreender seus efeitos sobre a fauna endêmica. Políticas de manejo adaptativo do fogo podem considerar esses dados para preservar interações ecológicas e conservar espécies especializadas.”

O artigo ganhou visibilidade não apenas na comunidade científica, mas também na imprensa internacional. A reportagem no The New York Times destacou a pesquisa como exemplo de adaptação ecológica diante de incêndios naturais, cada vez mais frequentes com o avanço das mudanças climáticas. “Ver uma pesquisa sobre o Cerrado brasileiro ganhar essa visibilidade é gratificante. Isso demonstra que há um interesse global sobre como a biodiversidade reage às mudanças climáticas e aos distúrbios naturais”, comenta Walter.
Atualmente o grupo de pesquisa da Unimontes segue expandindo os estudos no Parque Estadual da Serra do Cabral, também em Minas Gerais, com foco em outras interações ecológicas afetadas pelo fogo. A expectativa é investigar diferentes espécies e regiões do Cerrado, além de aprofundar a compreensão sobre os mecanismos evolutivos de proteção.
O artigo na íntegra pode ser lido aqui.


