Por Felipe Morais

Natural de Araguaína, município do norte do Tocantins situado em uma área de transição entre cerrado e floresta amazônica, Henrique relata que o contato com a natureza veio de berço, mas que o despertar para uma consciência ecológica veio mais tarde, estudando na Escola Agrotécnica Federal de Araguatins. “Comecei a perceber que estava ali para me formar técnico em agricultura, mas que não tinha nenhuma noção da nossa relação com o meio ambiente”. Foi daí que Henrique buscou expandir os conceitos aprendidos em sala de aula. “Conheci a agroecologia e fui atrás de estágios interdisciplinares de vivências, me relacionando e aprendendo com povos tradicionais e movimentos sociais”, relembra.
Alguns anos mais tarde, a busca por uma nova forma de interagir com a natureza se aprofundou no curso de Ciências Biológicas na UFT. “Fui estudar a fauna e flora do Jalapão e lá tive contato com a atividade do turismo de natureza. Mas observei que eram excursões de visita aos ambientes naturais sem nenhum desenvolvimento de consciência”, analisa. Durante a elaboração do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), então, Henrique descobriu a possibilidade de atuar como biólogo no ecoturismo. “Ao me aprofundar no tema, percebi que essa prática é uma ferramenta incrível para a preservação ambiental, desde que esteja alinhada à conservação do meio ambiente e ao envolvimento das populações tradicionais”, salienta. “Essas comunidades, que há gerações protegem esses territórios, são peças-chave para o sucesso de um turismo que seja verdadeiramente sustentável e consciente”, complementa, mencionando comunidades quilombolas que há décadas se estabeleceram em áreas que hoje fazem parte do Parque Estadual do Jalapão.
Empreendedorismo
A paixão pela natureza e a vontade de transformar o turismo em uma ferramenta de conservação ambiental se concretizaram na Jalapão Expedições Ecoturismo, fundada por Henrique em 2016. A empresa, formada por biólogos, um turismólogo e guias de turismo, tem por premissa promover experiências mais autênticas, que conectam os visitantes à biodiversidade do cerrado e às comunidades locais, aliadas a práticas sustentáveis: limitação no número de visitantes por excursão, redução na geração de resíduos plásticos, utilização de combustíveis menos poluentes, entre outras medidas.
“Desde que comecei a frequentar o Jalapão observava como os turistas eram levados até os atrativos e depois de volta para seus hotéis. Entendi que aquilo estava errado, que a distribuição de recursos estava ruim, que era preciso o envolvimento das comunidades. A indústria do turismo pode ser extremamente destruidora. O ecoturismo é o caminho para viajarmos de forma sustentável”, analisa.
Turismo e Biologia lado a lado
Se o ecoturismo é o caminho, a Biologia é uma bússola imprescindível. Os biólogos, com seu conhecimento técnico e científico, podem atuar para garantir que as atividades turísticas sejam realizadas de forma sustentável, minimizando impactos ambientais e promovendo a conservação. A atividade de ecoturismo, inclusive, está prevista na Resolução CFBio 700/2024.
“Nosso objetivo é promover a conservação, a conscientização e o bem-estar das comunidades”, reforça Henrique, que atesta a importância da graduação em Ciências Biológicas para sua carreira. “90% da minha consciência ecológica devo à Biologia”. Ele também destaca que o ecoturismo tem sido um dos segmentos que mais crescem no setor de turismo, justamente por abraçar essa valorização da natureza e das culturas locais.
Nesse contexto, os biólogos desempenham a função não apenas de guiar os turistas por trilhas e paisagens deslumbrantes, mas também assumem o papel de educadores ambientais, interpretando fenômenos naturais e explicando desde o comportamento dos animais até a importância de cada espécie para o equilíbrio do ecossistema. Essa abordagem transforma uma simples viagem em uma experiência de aprendizado, onde os visitantes passam a entender a complexidade e a fragilidade da natureza.
Povos tradicionais
Em todos esses anos vivenciando o Jalapão e outros atrativos naturais da região, o biólogo Henrique Abreu compreendeu que o conhecimento biológico é essencial, mas não o único. Para ele, é impossível falar em atividades de ecoturismo sem o envolvimento dos povos tradicionais. “São esses grupos que protegeram o patrimônio natural. Se não há fazendas ou resorts instalados ali, devemos a essas pessoas”.

Mas o envolvimento dos povos tradicionais no ecoturismo vai além da preservação ambiental: é também uma forma de promover justiça social e econômica. Ao incluir essas comunidades no planejamento e na execução das atividades turísticas, o ecoturismo gera renda e valoriza práticas sustentáveis, como o artesanato, a agricultura familiar e a culinária tradicional. Além disso, fortalece o orgulho cultural e o senso de pertencimento, mostrando ao mundo que o desenvolvimento pode ser aliado da conservação. “Quando o turista se hospeda em uma comunidade quilombola, ele participa de uma roda de conversa, ele leva consigo muito mais que uma lembrança; leva uma lição de vida”, reflete Henrique, que carrega ele mesmo uma experiência marcante desse contato. Em uma visita à comunidade Mombuca, o biólogo conheceu o “paizinho”, como é chamado o patriarca da comunidade. Em uma noite de observação da fauna local, o “paizinho” o guiou por trilhas no cerrado, mostrando-lhe como antas, tatus e outros animais vivem e se escondem naquele ambiente. “Foi uma lição de humildade e respeito”, relembra. “Ele me mostrou que a vida no cerrado é pulsante, mas discreta, e que as comunidades tradicionais são as verdadeiras guardiãs desse equilíbrio.” Essa vivência reforçou para Henrique a importância de incluir os saberes locais no ecoturismo, transformando os moradores em protagonistas das experiências oferecidas aos visitantes.
Perspectivas
A paixão que Henrique nutre pela Biologia e pelo ecoturismo não o impede de avaliar que ainda há desafios a serem superados, a começar nas faculdades. A ausência de disciplinas relacionadas à administração, economia criativa e gestão na grade curricular dos cursos de Ciências Biológicas, por exemplo, pode ser um limitador à atuação dos profissionais no mercado de ecoturismo. “Muitos biólogos saem da graduação sem saber como empreender ou gerir um negócio sustentável. É preciso buscar especializações e pós-graduações para preencher essas lacunas”, avalia. Além disso, ele destaca a importância de os biólogos se arriscarem e explorarem áreas de atuação além das tradicionais. “A diversidade de atuação é essencial. Só assim vamos alcançar o objetivo de manter o planeta vivo”, enfatiza.
Para que o ecoturismo continue a crescer e a se fortalecer, Henrique também acredita ser essencial que os biólogos ocupem espaços estratégicos, seja no setor público ou privado. “Os biólogos têm o conhecimento técnico e científico para garantir que o turismo seja feito de forma responsável. Precisamos estar à frente dessas iniciativas”, afirma.
Para ele, ser biólogo é motivo de grande orgulho e o registro profissional deve ser valorizado. “Tenho orgulho do meu registro no CRBio-04 e sempre tive o respaldo necessário para minhas atividades”. Atualmente, ao lado da bióloga Renata Acácio, Henrique representa o CRBio-04 e os biólogos em três órgãos deliberativos no Tocantins: no Conselho Gestor da Área de Proteção Ambiental do Jalapão, no Comitê do Parque Linear Urbano dos Povos Indígenas e no Conselho Municipal de Turismo de Palmas.


