
A imagem foi publicada pela primeira vez em 1965, no livro Early Man, do antropólogo F. Clark Howell. A versão original, creditada ao artista Rudy Zallinger, continha 15 indivíduos, que depois se condensou na versão que se tornou mais conhecida, com seis.
“É importante destacar [contudo] que a imagem linear da evolução amplamente divulgada não é negacionista ou pseudocientífica em sua origem”, conforme explicam as pesquisadoras Andrea Goldschmidt e Simone Guimarães no artigo “Desconstruindo imagens: representações visuais da evolução dos hominídeos e a problematização da ‘Marcha para o progresso’”. A ideia de que cada indivíduo na imagem era um descendente direto do anterior nunca foi a intenção do autor. Textos que acompanham a imagem na publicação original, inclusive, deixam isso bem claro.
Porém, infelizmente, não foi assim que o imaginário popular se apropriou da imagem. A versão reduzida e sem os textos de apoio se espalhou e ajudou a cristalizar uma ideia equivocada de evolução como um processo linear.
No artigo já citado acima, das pesquisadoras Andrea Goldschmidt e Simone Guimarães, foram analisadas 740 imagens encontradas no Google através da pesquisa do termo “evolução humana” e similares. Desse total, mais de 80% reproduziam o conceito linear de evolução.
Em uma participação no programa USP Analisa, da Rádio USP, em 2019, os pesquisadores Caio de Oliveira e Gabriel de Souza Ferreira também falaram sobre isso:
“Essa representação [da Marcha do Progresso] traz muitas interpretações erradas, primeiro porque ela traz a sensação de uma escala evolutiva: as espécies estão evoluindo para chegar no homem, que seria o topo da evolução, o ser mais evoluído. Na verdade todas as espécies estão igualmente evoluídas numa escala de tempo, nós estamos no mesmo momento do presente. Outra questão é porque se você lê-la da esquerda para a direita parece que um chimpanzé está virando um ser humano. O homem não veio do chimpanzé, existe uma diferença da descendência direta para a questão que a Biologia realmente traz, que é a ancestralidade comum. O que de fato temos com o chimpanzé é um ancestral comum”, explica Caio.

Gabriel complementa: “Essa divergência com o chimpanzé aconteceu entre 7 e 8 milhões de anos. Desde então as duas linhagens seguiram caminhos separados. Então você tem vários fósseis na nossa linhagem e vários fósseis nas linhagens dos chimpanzés. E, na nossa, é legal de identificar que não é uma linha, é mais um arbusto, você tem várias espécies diferentes. Até no nosso gênero, o gênero Homo, o mais comum era ter mais de uma espécie convivendo ao mesmo tempo. Essa ideia de linha é bem simplificada e equivocada.”
“Representações baseadas em modelos cladogenéticos, fundamentadas na sistemática filogenética, devem ser priorizadas em materiais didáticos e práticas educativas, por refletirem com mais precisão os dados empíricos da biologia evolutiva contemporânea. […] A superação de visões distorcidas da evolução humana depende da valorização de representações visuais epistemologicamente adequadas, da formação continuada de professores e da produção de materiais que contemplem a diversidade biológica e cultural da espécie humana. Nesse cenário, o ensino da evolução pode se tornar uma potente ferramenta de alfabetização científica, de combate ao negacionismo e de promoção de uma educação antirracista e mais comprometida com os avanços científicos”, concluem Andrea Goldschmidt e Simone Guimarães em seu artigo.
Fontes
Para a elaboração deste conteúdo foram consultados:
3) A obra Early Man, em que a imagem da “Marcha do Progresso” foi publicada originalmente


